Curse of Strahd – Sessão 0

Curse of Strahd

Começamos a aventura oficial de D&D 5E “Curse of Strahd”, uma releitura da aventura original de 1983, “Module I6: Ravenloft”, que posteriormente inspirou a criação do cenário de campanha Ravenloft.

A Sessão 0 teve o intuito de finalizar os personagens jogadores, e alinhar as expectativas entre todos os jogadores e o DM.

Regras de Criação de Personagens que usamos:

  • Livros: todos os oficiais lançados (PHB, DMG, MM, SCAG, VGTM e XGtE), e qualquer livro oficial que seja lançado durante a aventura será permitido.
  • Nenhum Unearthed Arcana permitido, exceto o Ranger, Revised.
  • A classe Witcher Blood Hunter, de autoria do Matthew Mercer (Critical Role), é o único material não oficial permitido.
  • Os valores de Habilidade foram definidos usando Standard Array (15, 14, 13, 12, 10, 8), ou Point Buy (27 pontos), ou rolagem padrão (4d6, retira o menor). Cada jogador escolheu qual método usar (apenas os personagens Leorin e Hayzen foram gerados com rolagem de dados, os demais usaram Point Buy).

O grupo ficou assim (nível 1):

  • Simon Belmont: (jogador Pablo) Human Ranger, background Haunted One, Chaotic Good.
  • Haizen: (jogador Henrique) Human Monk, background Haunted One, Lawful Good.
  • Bolvar Reinhardt: (jogador Marinho) Human Variant Paladin of Kelemvor, background Knight of the Order, Lawful Neutral.
  • Lira: (jogadora Carol) Lightfoot Halfling Rogue, background Criminal, Chaotic Good.
  • Leorin Shieldheart: (jogador Danilo) Human Witcher Blood Hunter, background Urban Bounty Hunter, Chaotic Neutral.

Com tudo pronto, jogamos uma espécie de prelúdio, e a história foi basicamente isso:

 

Reporte da Sessão

 
O grupo se conheceu em Daggerford, nas Terras Centrais do Ocidente, um dos lugares mais agitados e civilizados da Costa da Espada.

Cada personagem estava ali por um motivo, mas se uniram em volta de um objetivo em comum: o povo da região estava relatando histórias sobre uma enorme alcatéia de lobos, liderada por um lobo maior, mais inteligente, que os aldeões chamavam de Rei dos Lobos. Esta alcatéia vinha assolando a região, atacando gado, destruindo patrimônios, e, recentemente, assassinando brutalmente aldeões e raptando crianças. Os relatos indicavam que a alcatéia fazia a Misty Forest de lar.

A duquesa Morwen de Daggerford havia colocado uma recompensa para quem livrasse a região das criaturas, mas a história ia além…

A Igreja de Lathander, principal religião em Daggerford, informou Bolvar de que o clero acreditava que as criaturas não eram lobos comuns, mas vinham de uma terra distante através de algum tipo de portal antigo. Os sacerdotes também acreditavam que o tal Rei dos Lobos era um lobisomem, e, portanto, a Igreja pagou para que o martelo de Bolvar fosse banhado em prata.

O grupo partiu para a Misty Forest para caçar as criaturas, e adentrou a floresta mais ou menos ao anoitecer…

Não demorou muito para o grupo sofrer uma emboscada dos lobos, que demonstravam uma inteligência sobrenatural e lutavam de forma muito coordenada, mesmo para uma alcatéia.

Alcatéia

O grupo derrotou as criaturas, mas alguns deles ficaram gravemente feridos, portanto, fizeram um descanso breve para tratar as feridas.

Então continuaram a caçada… e logo se viram perdidos na floresta, conforme um nevoeiro denso tomava conta do lugar, impedindo a visão.

Decididos a não ficarem parados na floresta, como presas fáceis, continuaram caminhando, com dificuldade pelas baixas condições de visibilidade.

O grupo eventualmente saiu da floresta… dando de cara com um campo, rasgado por uma estrada velha que cruzava-o de norte a sul. A névoa se dissipava no campo. O grupo então decidiu retornar para a floresta e continuar caçando o Rei dos Lobos, mas percebeu que havia algo errado – a floresta parecia diferente. Suas árvores maiores, mais ameaçadoras. Além disso, o lugar agora estava completamente silencioso, e o nevoeiro havia dado lugar a uma névoa baixa.

Após caminhar um pouco, eles encontraram rastros de mais lobos… mas pareciam óbvios demais, até mesmo como se tivessem sido deixados de propósito. O que se provou verdade, quando eles encontraram mais lobos, liderados por um lobo maior, que logo se distorceu e transformou-se em uma forma humanóide, um híbrido de homem e lobo.

O Rei dos Lobos

O combate foi ainda mais difícil que o anterior, conforme as armas mundanas dos aventureiros se provaram ineficazes contra o lobisomem, exceto o martelo banhado em prata de Bolvar.

O paladino matou a criatura profana, enquanto seus companheiros davam conta dos lobos, mas, antes de morrer, o lobisomem, que agora revertia à forma de um humano, disse em tom de loucura e satisfação:

– S… sejam… bem-vindos… aos… domínios… de… meu… mestre!

O grupo não encontrou nada de relevante ao investigar os cadáveres, e decidiu tentar voltar para Daggerford… mas só conseguiram refazer seus passos, para o lugar onde haviam saído da floresta horas antes.

Decidiram, então, seguir a estrada para o sul, que deveria levar até Daggerford… mas conforme caminhavam, um nevoeiro denso tomou o lugar novamente. Quando se dissipou, o grupo percebeu que estavam novamente no lugar onde haviam alcançado a estrada. Estavam, de alguma forma, presos àquele lugar, que definitivamente não era a Misty Forest ou mesmo a região de Daggerford.

Intrigados com aquilo e com as últimas palavras do lobisomem, o grupo decidiu acampar à beira da estrada, na esperança de que o raiar do dia trouxesse alguma luz àquela situação.

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One Shot L5A – Reporte 2ª Sessão

Personagens Jogadores

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Kitsu Moshibaru: (Felipe) Foi enviado a Kenson Gakka para auxiliar Utaku Meiko, uma jovem cortesã do Unicórnio sob tutela dos Matsu e Ikeda, que vinha experimentando pesadelos recorrentes e cada vez mais assustadores. Apesar dos Kitsu serem protetores espirituais do Leão, a tarefa de livrar a jovem dos pesadelos se mostrou difícil para Moshibaru. E para piorar as coisas, aos poucos, Moshibaru se afeiçoou à menina. Conforme o Gempukku de Utaku Meiko-chan se aproximava, e Ikeda Hosaku, seu tutor, falava sobre casamento e procurava pretendentes, Moshibaru se dispôs a influenciar a decisão, para conseguir a honra de desposá-la. Mal sabia que isso faria sua Honra ser testada como nunca…

Hida Yoruichi: (Pablo) Junto com alguns outros bushi do Caranguejo, derrotou um companheiro samurai que havia sucumbido à Corrupção de Jigoku e se voltado contra seu próprio Clã, a serviço de Daigotsu. Porém, a alma condenada do homem não pôde descansar, tornando-se um Yokai. Decidido a acabar com a ameaça e limpar de uma vez a Honra de seu ex-companheiro, Yoruichi conseguiu a permissão de seu Daimyo para perseguir o espírito maligno e colocar aquela alma para descansar, de uma vez por todas. Sua caçada o levou para o norte, até muito além das terras do Caranguejo, chegando na província Gakka, nas terras da família Matsu, do Leão.

Shinjo Ogaru: (Danilo) Quando o Clã Unicórnio retornou de seu exílio de oito séculos em terras estrangeiras, há mais ou menos 4 séculos atrás, o Leão incumbiu Matsu Ikeda de observar de perto o Clã recém retornado, e aprender tudo o que podia sobre cavalaria. Destes eventos surgiu uma tradição entre o Leão e o Unicórnio (respectivamente entre as famílias Matsu/Ikeda e Utaku) de enviar algumas de suas crianças para serem educadas pelo outro clã. Para celebrar e honrar esta tradição, uma tropa de cavalaria do Unicórnio veio até Kenson Gakka para fazer uma demonstração de arquearia montada durante o Festival do Crisântemo que se aproximava. Shinjo Ogaru estava entre esta comitiva, e, a um dia do início das festividades, foi convocado para uma audiência com Matsu Domogu-sama, o Daimyo de Kenson Gakka.

Personagens do Mestre

Matsu Domogu: (Clã Leão) Daimyo de Kenson Gakka.

Matsu Shizue: (Clã Leão) Esposa de Matsu Domogu.

Utaku Meiko: (Clã Unicórnio) Jovem Cortesã do Clã Unicórnio, sob tutela da família Matsu, através da família Ikeda.

Ikeda Hosaku: (Clã Leão) Daimyo da família Ikeda, vassalos dos Matsu. Principal Hatamoto do Daimyo Matsu Domogu, e também o Magistrado Chefe da província Gakka.

Ikeda Uona: (Clã Leão) Irmã e Hatamoto de Ikeda Hosaku.

Yue: Heimin serviçal da casa de Ikeda, aia de Utaku Meiko.

Akodo Soetsu: (Clã Leão) Bushi do Leão e um dos principais guerreiros do daimyo Matsu Domogu. Amigo de infância de Utaku Meiko.

Bayushi Konetsu: (Clã Escorpião) Bushi do Escorpião, uma presença misteriosa em Kenson Gakka.

 

Livro Dois: Terra – Lâminas nas Sombras

Após compartilharem entre si as informações coletadas, e tomar parte em um jantar agradável na companhia de Ikeda Uona, os três samurai se retiraram para seus aposentos, para um descanso merecido. Mas seria uma noite agitada…

Desde tempos imemoriais a noite é o domínio de Onnotangu, Lord Lua, pai e carrasco dos Kami, que persegue incessantemente Amaterasu com seu ódio vingativo. A noite é o domínio das sombras, da enganação, e do assassinato…

Hida Yoruichi abriu os olhos com uma dor aguda na lateral do tórax. Logo sentiu o toque molhado de um líquido quente banhando sua cama… sangue. Ao invés de medo e preocupação com o ferimento, que acometeria a muitos, o Caranguejo levantou-se e alcançou sua katana, repousada em um suporte bem montado ao lado de sua cama. O movimento fez o objeto pontiagudo cravado em sua carne mexer, e isso o fez soltar um grunhido alto. Olhou em volta, e só viu a escuridão da noite preenchendo seu quarto. Também não ouvia nada.

Do outro lado da parede fina de madeira, Shinjo Ogaru acordou com o grunhido do Caranguejo. Tinha o sono leve, como vários Unicórnios, acostumados a dormir ao relento, muitas vezes no lombo de seus cavalos. Ouviu a voz grave de Hida Yoruichi, abafada pela madeira das paredes.

– Apareça, cão sem honra!

Como o vento, Shinjo Ogaru abriu a porta de seu quarto que dava ao jardim, katana em mãos, alcançou a porta shoji dos aposentos de Hida Yoruichi e a deslizou. Viu o Caranguejo em pé, segurando sua enorme katana pela bainha, e sangue escorrendo pelo seu torso e perna direita a partir de um ferimento provocado por um kunai, ainda cravado em sua carne.

Os dois viram uma forma humanóide, escondida nas sombras do outro lado do quarto. Ambos os samurai desembainharam suas katanas com um barulho quase inaudível, prontos para o combate iminente.

Shinjo Ogaru mirou sua lâmina, refletindo a luz da lua em seu alvo. A luz era fraca e pálida, mas suficiente para saber o que enfrentavam: um ninja, o pior tipo de inimigo de um samurai, e o tipo mais desonrado de pessoa – pior que isso, um ninja era menos que uma pessoa, inferior até a um hinin (“não-pessoas”), e não era crime matar ninja em Rokugan.

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O ninja se aprontou para passar pelos samurai e alcançar o jardim. Hida Yoruichi e Shinjo Ogaru se aprumaram, aguardando o movimento do inimigo, com espadas em mãos, e posturas que refletiam anos de treinamento. O ninja saltou em direção à porta que Shinjo Ogaru protegia…

Hida Yoruichi foi lento demais, e cortou o ar. Shinjo Ogaru previu o movimento do ninja, e desferiu um corte certeiro no torso do inimigo. Sangue jorrou pela parede e pelo chão. Mas, em seu movimento ligeiro, o ninja desembainhou uma ninja-to e cortou o abdômem do samurai. Mas, antes que o ninja pudesse escapar do alcance dos bushi, Hida Yoruichi se moveu, ergueu a katana acima da cabeça, deu um passo largo à frente, e desferiu um golpe que atingiu as costas do ninja. Mais sangue banhou o chão de madeira.

O inimigo continuou em direção ao jardim, cambaleando, devido aos ferimentos sofridos pelas lâminas dos samurai. Shinjo Ogaru tentou dar fim ao combate, mas a dor do ferimento provocado pelo ninja atrapalhava sua precisão, e o ninja esquivou-se de seu ataque. Mas, ao fazê-lo, abriu a guarda contra a investida de Hida Yoruichi, e, antes que Shinjo Ogaru pudesse dizer para que capturassem o inimigo, o aço afiado da katana do Caranguejo atravessou o ar em um movimento horizontal impressionante.

Uma luz fraca brilhou do outro lado do jardim, conforme um guarda acendia uma lanterna hachi para enxergar melhor. O brilho da luz alaranjada da lanterna chegou fraco ao local onde estavam em pé Shinjo Ogaru, o ninja, e Hida Yoruichi, ainda na postura de seu ataque anterior.

O guarda pôde ver o ninja cair de joelhos à beirada da lagoa. O corpo caindo de um lado, e a cabeça rolando pelo chão em outra direção, e sangue jorrou em abundância, substituindo o brilho da água pura por uma cor escura e fôsca.

– Soem alarmes! – berrou Hida Yoruichi, conforme Shinjo Ogaru levava a mão ao ferimento na barriga, e ajoelhava-se, sucumbindo à dor e o sangramento. O ferimento doía mais que o comum, embora uma sensação de dormência começasse a tomar conta da região em volta do ferimento.

O alarme e movimentação dos guardas acordou Kitsu Moshibaru, que foi ao encontro dos outros dois.

Hida Yoruichi pediu que um guarda encontrasse um servo que pudesse sujar as mãos com a tarefa desonrosa de manipular o cadáver do ninja que jazia no jardim.

Os guardas e demais samurai à serviço de Ikeda Uona certificaram-se que a casa estava segura, e os três samurai receberam a informação que Ikeda Uona estava a salvo.

Enquanto esperavam pelo retorno do guarda, Kitsu Moshibaru buscou seus pergaminhos ofuda em seus aposentos, e os trouxe até à margem da lagoa. O Leão começou a ler uma prece em seus pergaminhos, suplicando aos kami da água que influenciassem o fluxo daquele elemento no corpo de Shinjo Ogaru, corrigindo o fluxo do chi e ajudando-o a caminhar a trilha à paz interior, aumentando sobrenaturalmente a capacidade de cura do ferimento no Unicórnio, que cicatrizava em uma velocidade impressionante conforme a prece do shugenja era atendida.

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Sacerdotes e escribas, emissários terrenos dos kami e das Fortunas, shugenja eram Rokugani capazes de se comunicar com os kami e influenciá-los a realizar coisas impressionantes em seus nomes, e não eram raros no Império. Ainda assim, ver um shugenja praticar sua arte era sempre algo impressionante e magnífico.

Kitsu Moshibaru terminou o feitiço de cura, e procedeu a curar Hida Yoruichi também, que agradeceu. Esgotado pelo esforço aplicado para realizar a feitiçaria dos kamis, Kitsu Moshibaru desejava retornar ao sono, mas, antes, certificou-se de que as armas do ninja não estavam envenadas. Tal atitude se provou acertada, já que pôde constatar que as armas do ninja estavam todas cobertas de Kirei-ko, um veneno muito comum, que atacava o sistema nervoso, dilatando as pupilas, deixando a visão turva, a pele e a boca secas, causando alucinações leves, e aumentando drasticamente os batimentos cardíacos e a pressão arterial. Se não cuidado, podia matar o alvo lentamente de forma agoniante. Por sorte haviam componentes para o antídoto na casa Ikeda, logo, Moshibaru tratou de produzir o antídoto, e ministrou aos dois samurai, salvando-os de uma morte vergonhosa.

Enquanto isso os demais investigaram o cadáver do ninja com a ajuda de um servo eta, que cuidava de manusear o cadáver para que os samurai não sujassem suas mãos com tarefa tão desonrosa e imunda. Um eta era uma categoria inferior de hinin (“não-pessoas”), chamados “intocáveis”, e cuidavam de todas as tarefas consideradas sujas, como preparar os mortos, limpar campos de batalha, lidar com lixo e dejetos, trabalhar com couro de animais, e muitas vezes eram treinados como torturadores. Criminosos e ninja também eram considerados eta. Só um tipo de pessoa estava abaixo dos eta na Ordem Celestial, os gaijin.

Investigando o cadáver dando ordens para o servo heimin transmitir ao eta – pois os samurai não ousavam sequer dirigir o olhar ao eta -, encontraram algumas armas de um ninja, e sachês de veneno, um deles um pouco mastigado no interior da boca do ninja morto. Era comum que ninjas capturados tirassem a própria vida com venenos muito potentes, para não revelar sob tortura sua identidade e informações importantes.

Porém, o mais perturbador foi encontrarem marcas da Mácula das Terras Sombrias no cadáver. Veios escuros que percorriam sua pele, vindos das extremidades das mãos, alcançando sua face, como se o sangue tivesse se tornado negro. Entretanto, uma investigação mais apurada revelou que as marcas da Mácula das Terras Sombrias eram forjadas, nada além de maquiagem. A princípio os samurai pensaram se tratar de um embuste para que o corpo, caso o ninja fosse abatido ou capturado, não fosse revistado ou investigado. Este palpite se fortaleceu quando encontraram no cadáver um pedaço de bambu, com o mon do Clã Aranha estampado.

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O Clã Aranha era uma abominação que havia nascido nas Terras Sombrias, sob o comando de Daigotsu, autoproclamado Senhor Sombrio das Terras Sombrias. Filho do Imperador Hantei XXXVIII, teve sua alma ligada a um oni das Terras Sombrias, e por muito tempo viveu exilado em Jigoku (inferno). Fundou o Clã Aranha em seu retorno à Rokugan, abraçando todos aqueles caídos pela Mácula e outros renegados sob seu serviço. O Clã Aranha se infiltrava entre os Grandes Clãs, lentamente ganhando influência em suas fileiras e corrompendo-os, desestabilizando-os, com o intuito de alcançar seu objetivo final: o Trono Imperial.

A presença de ninja da Aranha era perturbadora, mas, com a casa segura, e sem sinal de mais hostilidade, os samurai se dirigiram à seus aposentos para finalmente descansar, pois nada produtivo seria alcançado cansados como estavam.

No dia seguinte, após seus rituais e práticas matinais e uma refeição fortalecedora, enviaram uma mensagem para Akodo Soetsu, com o intuito de marcar uma reunião com o samurai do Leão na Chashitsu no Junsui (Casa de Chá Água Pura), que havia se tornado a favorita de Kitsu Moshibaru em Kenson Gakka. A reunião fora confirmada por Akodo Soetsu, e marcada para aquela tarde. Até lá, os samurai tinham tempo para aproveitar o Festival do Crisântemo, que havia começado naquela manhã, e investigar mais sobre os eventos do dia anterior.

A cidade estava movimentada, em festa, e as ruas preenchidas de barracas e tendas, que comercializavam comidas, artesanato, enfeites, e vários outros produtos. Em muitos lugares haviam palcos, onde artistas e animadores tocavam música e encenavam peças teatrais em vários estilos, como as danças Kabuki, as performances minimalistas e poéticas Noh, e o teatro de marionetes Bunraku.

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Também haviam bardos da Escola Ikoma, do Leão, que contavam histórias que celebravam a linhagem Imperial.

Os três samurai aproveitaram o passeio por Kenson Gakka para conversar sobre os acontecimentos, e tentar chegar a uma conclusão do que fazer a seguir.

Hida Yoruichi aproveitou para contar melhor sobre sua caçada ao Yokai, e os demais indagaram ao Caranguejo se tudo aquilo poderia ter ligação com a criatura. Kitsu Moshibaru disse que o Clã Aranha poderia estar utilizando a presença do Yokai para agir, mas mesmo assim, tudo era muito estranho e desconexo. Seria mesmo o ninja um agente do Clã Aranha? Se era um Aranha, porque se pintava para parecer Maculado? Porque carregava consigo uma identificação tão óbvia como o mon da Aranha?

O Caranguejo então contou aos outros dois sobre seu encontro com o kami da terra que havia possuído o leão Yuzan, e conversado com ele na casa Ikeda no dia anterior. Com isto dito, Kitsu Moshibaru se dirigiu até a casa de Ikeda para tentar contactar o kami, usando seus conhecimentos e feitiços de shugenja, mas a busca foi infrutífera. Não havia nenhum kami na casa de Ikeda. Poderia ser o Yokai influenciando o Caranguejo? Ou estaria o Caranguejo apenas se convencendo de que estava na trilha certa? Como viviam em estado de guerra constante contra as forças nefastas das Terras Sombrias, a maioria dos Caranguejos era paranóica quanto a este assunto, e viam a mão de Fu Leng em todos os eventos.

Shinjo Ogaru e Hida Yoruichi decidiram que talvez o melhor caminho seria seguir ao norte, para onde Ikeda Hosaku havia partido atrás de Utaku Meiko. Ao norte também ficava Kyuden Ikoma, uma das maiores bibliotecas e repositórios de conhecimento de Rokugan. Teria isso ligação com os documentos sobre a linhagem Ikeda e Utaku encontrados remexidos no escritório de Ikeda Hosaku? Além do mais, Ikeda Hosaku havia ordenado que não fosse seguido, mas nenhum deles, nem mesmo Kitsu Moshibaru, estavam à serviço de Ikeda Hosaku. Poderiam seguir o rastro do Hatamoto sem desonra.

Enquanto Kitsu Moshibaru tentanva contactar o kami da terra na casa de Ikeda, Shinjo Ogaru foi até o acampamento Unicórnio nos arredores da cidade, para ver se encontrava alguém que havia conhecido Utaku Meiko antes da garota se mudar para Kenson Gakka sob proteção dos Matsu e Ikeda, para buscar qualquer informação que os ajudassem.

Aparentemente o bushi Unicórnio estava em um dia auspicioso, e ouviu que uma prima de Utaku Meiko estava entre a hoste de seu Clã acampada em Kenson Gakka. Ele procurou a mulher, e a encontrou quando ela terminava uma das apresentações de arquearia montada do Festival.

Era uma mulher guerreira de quase trinta anos, com os cabelos longos minimamente cuidados, presos em um coque samurai, que servia para prender e dar sustenção ao elmo de batalha. Vestia uma armadura leve púrpura, como todas as donzelas guerreiras Utaku ali presentes. Portava o daisho bem preso ao seu obi, e cuidava de seu cavalo negro, cansado da apresentação.

Utaku Ariko

Utaku Ariko

– Bom dia, Utaku-san. – Shinjo Ogaru se aproximou, fazendo uma mesura.

– Quem me interrompe? – Respondeu a mulher, em um tom severo.

– Sou Shinjo Ogaru, bushi da Escola Moto. Concede-me licença para uma breve conversa?

A mulher assentiu com a cabeça.

– Utaku-san é prima de Utaku Meiko, correto? – Perguntou Shinjo Ogaru, tentando não parecer estranho.

– Sim.

– Quando a viu a última vez? – Shinjo Ogaru não queria alardear a mulher, mas não sabia como fazer as perguntas que gostaria sem soar impróprio.

– Quando partiu para cá. Ainda não a vi desde que cheguei aqui.

– Ela era uma garota dedicada? Sabe se tinha algum sonho? – As perguntas soaram completamente estranhas e impróprias.

– Devia ter se tornado uma guerreira, como toda Utaku. Mas acredito que o Leão a transformou em uma cortesã. Para o bem ou para o mal. – Respondeu a donzela Utaku, já sem paciência para aquela conversa sem sentido, mas ainda mantendo a cortesia.

Shinjo Ogaru percebeu que a conversa ia mal e ficou sem palavras. A mulher cerrou os olhos, como se examinasse Shinjo Ogaru, e, por fim, disse:

– Com sua licença. – Montou no corcel negro, e partiu dali. Talvez em outra oportunidade, com palavras bem pensadas e um propósito claro, Shinjo Ogaru teria mais sorte.

Enquanto isso, Hida Yoruichi procurou pela cidade por boatos e rumores que apontassem a presença do Yokai no feudo, mas não ouviu nada que julgasse relevante.

Perto do fim da tarde, os três samurai se encontraram na casa de chá, onde Akodo Soetsu já os aguardava, acompanhado de um outro samurai do Leão.

Akodo Soetsu era um homem sério, alto, com o cabelo não muito longo, preso em um coque no alto da cabeça. Aparentava ter por volta de vinte e cinco anos de idade, e usava um kimono amarelo escuro, com o mon do Leão nas costas, e o mon da família Akodo no ombro direito. Sua katana e wakizashi repousavam no chão, do seu lado esquerdo. A casa de chá estava lotada, mas Akodo havia escolhido um lugar mais reservado, que os separava do público por um biombo decorado com imagens de sakuras. Os três samurai se aproximaram, apresentaram-se, e Akodo fez o mesmo. Ele se virou para Kitsu Moshibaru, e disse:

Akodo Soetsu

Akodo Soetsu

– Acredito que já nos encontramos antes…

– Sim. É uma honra revê-lo, Akodo-san. – Respondeu Kitsu Moshibaru.

– A honra é minha. – Rebateu Akodo Soetsu. E continuou:

– Pelos mons em seus kimonos, posso assumir que são os samurai que Matsu-sama convocou para pedir auxílio nas investigações sobre o sumiço de Utaku-san. – Disse Akodo Soetsu, indo direto ao ponto, como era comum para muitos bushi do Leão.

Os três samurai assentiram. Akodo retomou a palavra:

– Mas até onde soube, havia um terceiro, um Escorpião.

Shinjo respondeu:

– Bayushi-san disse que procuraria os responsáveis pela investigação.

– A mim ele não procurou. – Afirmou Kitsu Moshibaru.

– Bom, em que posso ajudar? – Perguntou Akodo Soetsu.

– Soube que Akodo-san é um grande amigo de Utaku-san. O que puder nos dizer, qualquer coisa, que nos ajude, será apreciado. – Disse Shinjo Ogaru, em tom cortês.

– Conheço Utaku-san desde que partiu das terras do Unicórnio. Eu era um dos yojimbo que a escoltou daquelas terras até Kenson Gakka. Por frequentar a casa de Ikeda Hosaku-sama, tive a honra de ser agraciado com a amizade de Utaku-san.

– Akodo-san, nossas investigações nos levam a crer que Utaku-san tenha fugido por conta própria, ou fora enfeitiçada e compelida a fazê-lo por um Yokai que Hida-san – Shinjo Ogaru apontou para o Caranguejo – vêm caçando desde Kaiu Kabe.

– Apenas a segunda opção faz sentido para mim. – Disse Akodo, com convicção. – Utaku-san jamais desonraria seu daimyo e a si mesma ao fugir dessa forma.

– Ouvimos dizer que Ikeda-sama procurava pretendentes para Utaku-san. Sabe algo a respeito? – Perguntou Shinjo, esperando que Akodo dissesse aquilo que o Unicórnio já esperava ouvir.

– Sim. Alguns dias antes do desaparecimento de Utaku-san, Ikeda-sama disse que tinha a intenção de conceder a honra de desposar Utaku-san a este samurai que vos fala. – O olhar de Akodo Soetsu recaiu brevemente sobre Kitsu Moshibaru, que, por sua vez, disse, com uma calma controlada:

– Fico feliz em ouvir isso, meus parabéns. – Engoliu seco.

– Havia algum motivo para Utaku-san se sentir infeliz? Algo sobre o casamento que possa ter influenciado em seu desaparecimento? – Perguntou Shinjo Ogaru, de forma educada, sem ofender o samurai Akodo.

– Não. Inclusive, um dia antes de fugir, ela me enviou uma carta dizendo que estava muito feliz com a decisão de Ikeda Hosaku-sama, e que isso trouxe um pouco de calma e alívio à seu coração perturbado pelos pesadelos que vinha experimentando.

– Poderia nos deixar ver esta carta? Pode haver algo oculto que não estamos enxergando. – Shinjo Ogaru disse de forma cortês.

– É claro, ordenarei a um servo que a entregue para você na casa de Ikeda. Falando nisso… Ikeda Uona-sama requisitou reforços ao castelo, e informou Matsu-sama do ataque desta noite. Vejo que estão todos bem. Não tenho nada além de estima e apreço por samurai que acabaram com a vida de criatura tão baixa como um shinobi. – Akodo disse num tom firme a Hida Yoruichi e Shinjo Ogaru. – Que suas lâminas encontrem os pescoços de tais inimigos muitas vezes mais.

Hida Yoruichi e Shinjo Ogaru assentiram, agradecendo o elogio.

Então uma serva da casa de chá apareceu no vão que o biombo deixava para a área comum do estabelecimento. Ela se curvou quase até o chão, e entregou um pedaço de papel enrolado a Kitsu Moshibaru. Ele leu o conteúdo, e entregou a Akodo Soetsu. Akodo também leu a mensagem, e disse:

– Parece que o Escorpião resolveu aparecer. Ele pede para se juntar à nossa prosa. Digo para que venha? – Perguntou Akodo Soetsu.

Todos assentiram, exceto Hida Yoruichi, que fez uma expressão de leve desgosto e bufou. Akodo Soetsu apenas assentiu para a serva, e disse:

– Diga a ele que é bem-vindo.

Um momento breve se passou, e então o samurai do Escorpião apareceu no vão do biombo. Usava um kimono muito parecido com o do dia anterior na audiência com Matsu Shizue, mas estava com o cabelo comprido solto. Ele fez uma mesura exagerada, prendeu o cabelo em um coque, e se sentou entre Hida Yoruichi e Kitsu Moshibaru.

Bayushi Konetsu

Bayushi Konetsu

– Descobriu algo em suas investigações, Bauyshi-san? – Perguntou Shinjo Ogaru, indo direto ao ponto. A presença de um Escorpião sempre deixava as pessoas desconfortáveis, e aquela situação não era diferente.

– Sim – falou o Escorpião, com a voz abafada por trás da máscara vermelha. – Peçam mais um chá, por favor. Há muito o que conversar.

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One Shot L5A – Reporte 1ª Sessão

Personagens Jogadores

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Kitsu Moshibaru: (Felipe) Foi enviado a Kenson Gakka para auxiliar Utaku Meiko, uma jovem cortesã do Unicórnio sob tutela dos Matsu e Ikeda, que vinha experimentando pesadelos recorrentes e cada vez mais assustadores. Apesar dos Kitsu serem protetores espirituais do Leão, a tarefa de livrar a jovem dos pesadelos se mostrou difícil para Moshibaru. E para piorar as coisas, aos poucos, Moshibaru se afeiçoou à menina. Conforme o Gempukku de Utaku Meiko-chan se aproximava, e Ikeda Hosaku, seu tutor, falava sobre casamento e procurava pretendentes, Moshibaru se dispôs a influenciar a decisão, para conseguir a honra de desposá-la. Mal sabia que isso faria sua Honra ser testada como nunca…

Hida Yoruichi: (Pablo) Junto com alguns outros bushi do Caranguejo, derrotou um companheiro samurai que havia sucumbido à Corrupção de Jigoku e se voltado contra seu próprio Clã, a serviço de Daigotsu. Porém, a alma condenada do homem não pôde descansar, tornando-se um Yokai. Decidido a acabar com a ameaça e limpar de uma vez a Honra de seu ex-companheiro, Yoruichi conseguiu a permissão de seu Daimyo para perseguir o espírito maligno e colocar aquela alma para descansar, de uma vez por todas. Sua caçada o levou para o norte, até muito além das terras do Caranguejo, chegando na província Gakka, nas terras da família Matsu, do Leão.

Shinjo Ogaru: (Danilo) Quando o Clã Unicórnio retornou de seu exílio de oito séculos em terras estrangeiras, há mais ou menos 4 séculos atrás, o Leão incumbiu Matsu Ikeda de observar de perto o Clã recém retornado, e aprender tudo o que podia sobre cavalaria. Destes eventos surgiu uma tradição entre o Leão e o Unicórnio (respectivamente entre as famílias Matsu/Ikeda e Utaku) de enviar algumas de suas crianças para serem educadas pelo outro clã. Para celebrar e honrar esta tradição, uma tropa de cavalaria do Unicórnio veio até Kenson Gakka para fazer uma demonstração de arquearia montada durante o Festival do Crisântemo que se aproximava. Shinjo Ogaru estava entre esta comitiva, e, a um dia do início das festividades, foi convocado para uma audiência com Matsu Domogu-sama, o Daimyo de Kenson Gakka.

Personagens do Mestre

Matsu Domogu: (Clã Leão) Daimyo de Kenson Gakka.

Matsu Shizue: (Clã Leão) Esposa de Matsu Domogu.

Utaku Meiko: (Clã Unicórnio) Jovem Cortesã do Clã Unicórnio, sob tutela da família Matsu, através da família Ikeda.

Ikeda Hosaku: (Clã Leão) Daimyo da família Ikeda, vassalos dos Matsu. Principal Hatamoto do Daimyo Matsu Domogu, e também o Magistrado Chefe da província Gakka.

Ikeda Uona: (Clã Leão) Irmã e Hatamoto de Ikeda Hosaku.

Yue: Heimin serviçal da casa de Ikeda, aia de Utaku Meiko.

Akodo Soetsu: (Clã Leão) Bushi do Leão e um dos principais guerreiros do daimyo Matsu Domogu. Amigo de infância de Utaku Meiko.

Bayushi Konetsu: (Clã Escorpião) Bushi do Escorpião, uma presença misteriosa em Kenson Gakka.

Livro 1: Ar – Nada é o Que Parece

A região de Kenson Gakka estava agitada. Era um dia de verão, no mês do Cavalo, e a cidade conduzia os preparativos para o início do Festival do Crisântemo. Um vento fresco soprava sob um céu sem nuvens, e os campos de arroz estavam cheios de trabalhadores.

Artesãos e comerciantes ocupavam as ruas e estradas aprimorando os preparativos finais para as celebrações daqui a quatro dias. Na verdade, contam as lendas que foi no sexto dia do mês do Cavalo que os Kami caíram sobre a terra. Assim, então, comemorava-se esta data com uma festa prodigiosa em todo o Império Esmeralda. Embora não fosse o mais famoso, o Festival do Crisântemo era bastante popular, não por sua importância, mas sim pelos rituais que o rodeavam.

Shiro no Meiyo

Shiro no Meiyo, toshi no Kenson Gakka

Durante sete dias (quatro antes e três depois) qualquer trabalho era interrompido e até mesmo os agricultores podiam deixar de lado suas ferramentas. Quase ninguém trabalhava durante o festival a fim de celebrar a linhagem Imperial e sua longevidade.

O crisântemo era o símbolo da Família Imperial, sua ligação antiga com Amaterasu, a Mãe Sol, e todos os Kami que caíram do Paraíso Celestial. Não era somente o emblema da linhagem do Imperador, mas também dos fundadores dos Sete Grandes Clãs.

O Símbolo da Família Imperial

Crisântemo, e o mon da linhagem Imperial

Três samurai encontravam-se em posição seiza em uma sala simples, no interior de um edifício anexo a Shiro no Meiyo, o Castelo da Honra, aguardando suas audiências com o Daimyo Matsu Domogu.

Hida Yoruichi, um guerreiro de alta estatura, muito mais alto que a grande maioria do povo Rokugani, e de porte físico impressionante, havia chegado na província há mais ou menos uma semana. Não entendia porque fora convocado para uma audiência com o daimyo. Como todos os Hida, era fortemente movido pelo seu dever, e não tinha tempo a perder. Mas havia ouvido boatos em uma casa de chá sobre um desaparecimento… talvez aquilo teria ligação com o Yokai que vinha caçando desde Kaiu Kabe, a Muralha do Carpinteiro. Além do mais, recusar a convocação de um samurai de posição tão elevada era desonroso. De baixo de seu kimono azul escuro, imóvel como a montanha, aguardava pacientemente ser chamado.

Próximo a ele estava um bushi claramente do Clã Unicórnio. Não porque vestia um rico kimono púrpura com o mon do Unicórnio nas costas, mas pelo corte de cabelo curto, sem penteado, completamente fora da tradição Rokugani, e as jóias douradas que exibia pelo corpo. Suas feições eram de um Rokugani, mas abrandadas pelo sangue gaijin que corria forte nas veias do Clã. Mas nem de longe se parecia ou se portava como os (quase) bárbaros da família Moto.

Isolado, em um canto menos iluminado do aposento, estava um bushi do Escorpião. De longos cabelos negros, muito bem cuidados e presos em um rabo de cavalo, usava um menpo vermelho que cobria o nariz e a boca, como era costume dos samurai do Escorpião, e um kimono escarlate. Na parte desnuda de sua face havia uma cicatriz horrenda, que partia da testa, atravessando o olho esquerdo, e desaparecia sob o menpo.

Seus daisho haviam sido deixados em uma antessala, como mandava o costume.

A espera parecia ter chegado ao fim, quando passos ligeiros puderam ser ouvidos do outro lado da parede de madeira fina e papel seda. Os passos se encerraram em frente a uma porta, e a mesma criada que os conduzira até ali deslizou a porta shoji com cuidado. Era uma jovem de aparência agradável e voz suave.

– Samurai-sama, – ela disse após se curvar quase ao chão, mantendo a cabeça baixa. – A Senhora Matsu Shizue-sama os aguarda. Queiram me acompanhar, por favor.

Aquilo tomou todos de surpresa. Haviam sido convocados pelo Daimyo Matsu Domogu, porque sua esposa os receberia?

Foram conduzidos até uma ampla sala, onde havia um bushi em posição seiza, que aparentava ter em torno de trinta anos de idade, e vestia um kimono amarelo, onde era possível ver o mon da família Matsu no ombro direito, e exibia o corte de cabelo tradicional de um samurai. Sua katana e wakizashi repousavam no chão, do seu lado direito, indicando que não exprimia hostilidade e os convidados não ofereciam perigo. Ao lado dele estava em pé um outro homem que vestia um kimono marrom, mas não portava armas, e parecia ser um arauto.

Três almofadas repousavam no chão ao centro da sala, onde os convidados se acomodaram. A criada caminhou até o lado oposto da sala, onde havia um biombo. Ao deslizá-lo, revelou uma mulher de mais ou menos quarenta anos de idade, ainda muito bela, com longos cabelos presos em um coque muito bem amarrado, vestindo um kimono de seda amarelo, e se abanava com um leque vermelho com a figura de um dragão.

O arauto apresentou os visitantes, Hida Yoruichi do Clã Caranguejo, Shinjo Ogaru do Clã Unicórnio, e Bayushi Konetsu do Clã Escorpião.

– É um honra conhecer todos vocês, samurai-san. Sejam bem-vindos à casa de Matsu Domogu-sama e que a amizade de vossos clãs com a casa Matsu perdure, e que seja ainda mais estreitada nesta data tão especial do Festival do Crisântemo – ela fez uma leve mesura. Os três visitantes se curvaram, em respeito. Ela retomou a palavra: – Uma reunião com samurai de clãs tão diferentes, Hantei ficaria contente, isso é muito auspicioso.

O samurai do Escorpião ofereceu uma caixa de bambu embrulhada em seda vermelha, segurando-a com as duas mãos, como mandava a tradição de presentear um daimyo ao conhecê-lo, mas a senhora o interrompeu:

– Guarde isso para depois, Bayushi-san. – Ela disse sem ofendê-lo. – Matsu Domogu-sama encontra-se em Shiro Matsu, e receio que só regressará após o Festival, mas ainda assim ele é daimyo, e o presente o pertence. Por favor, guardem vossos presentes e aguardem o retorno do daimyo, pois ele certamente ficará honrado em recebê-los.

– Antes de continuarmos, peço desculpas em nome do daimyo. Ele me incubiu de recebê-los e transmitir a vós o motivo da convocação. Trata-se de Utaku Meiko-chan.

Shinjo Ogaru reconheceu a origem do nome, e imaginou que tratava-se de uma das crianças do Clã Unicórnio sob proteção dos Matsu de Kenson Gakka, pois os Utaku eram uma das principais famílias do Unicórnio. Tinha uma tradição matriarcal, e era famosa por suas donzelas guerreiras que formavam a Shiotome, um regimento de cavalaria de elite, uma das principais forças militares do Unicórnio. Haviam muitos Utaku na comitiva do Unicórnio que Shinjo Ogaru acompanhara até Kenson Gakka.

– Meiko-chan está desaparecida há seis dias. Os magistrados do feudo não puderam determinar se ela foi raptada ou fugiu.

Todos na sala entenderam o motivo de preocupação, especialmente Shinjo Ogaru, que agora entendia porque havia sido convocado. Com uma hoste do Unicórnio acampada nos arredores da cidade, tal incidente poderia gerar uma situação perigosa. Incluir um samurai do Unicórnio no assunto era uma maneira de incluir o Clã, sem tornar o assunto público e criar tensão diplomática.

– Ela tem apenas 16 anos e é protegida do Hatamoto do daimyo, Ikeda Hosaku. Mas mesmo ele não foi capaz de encontrá-la e também desapareceu há três dias. Daimyo Matsu Domogu não poderá descansar enquanto não souber que Utaku Meiko está fora de perigo. Os magistrados do feudo estão trabalhando para resolver este incidente infeliz, e o daimyo pede humildemente vossa ajuda. Qualquer informação que obtiverem, ou qualquer outra coisa que possa trazer Utaku Meiko-chan de volta fortalecerá ainda mais a estima da família Matsu com vossos Clãs. O daimyo conta com a ajuda e discrição de tão honrados samurai.

Sabendo a situação em que se encontravam, os três samurai assentiram com a cabeça, e Shinjo Ogaru falou:

– Ficarei honrado em ajudar, Matsu-sama.

A mulher exibiu um leve sorriso cortês, e finalizou:

– Se desejarem um ponto de partida, dirijam-se até a casa de Ikeda Hosaku. Foi onde Utaku-chan foi vista pela última vez. Um servo os guiará pela cidade, e ele os entregará um documento dando total liberdade para transitar pelo feudo.

Os três samurai se levantaram, e se retiraram da sala. Foram conduzidos até suas armas, onde Bayushi Konetsu falou pela primeira vez:

– Procurarei algum magistrado envolvido na investigação. – Fez uma leve mesura, e saiu.

Quando os outros dois estavam prontos, com suas armas aprumadas no obi em suas cinturas, um servo veio ao encontro deles. Era um homem quase idoso, curvado, já cansado de uma vida de labuta. Ele os guiou pela cidade, falando muito e com entusiamo sobre os preparativos do festival. Contou a eles também a história por trás do nome da cidade, Kenson Gakka. Alguns séculos atrás, o Campeão do Clã Escorpião, Bayushi Tsuya, conquistou a cidade, utilizando túneis que davam passagem pelas montanhas na fronteira entre os territórios do Escorpião e do Leão. Após a conquista, Bayushi Tsuya renomeou a cidade como Sombra do Leão, envergonhando seus inimigos. O Escorpião defendeu a cidade por anos, e, julgando o Leão como fraco, tentou avançar e conquistar Kyuden Ikoma. Os Matsu de Shiro Matsu se aproveitaram, e retaliaram, atacando Sombra do Leão. Os Matsu mataram cada homem, mulher e criança dentro da cidade e a retomaram para o Leão. Com sua linha de suprimentos e reforços interrompida, o Escorpião eventualmente foi derrotado no cerco a Kyuden Ikoma. Então, os Matsu rebatizaram a cidade novamente, chamando-a de Kenson Gakka, “Lição de Humildade”. O Leão comemora a vitória na Batalha de Kenson Gakka até hoje, no Festival da Tartaruga Humilde.

Após alguns minutos de caminhada pelas ruas movimentadas da cidade, os dois samurai chegaram à casa da família Ikeda. Era uma construção grande, mas simples. O servo mostrou o documento de livre passagem para um guarda, e informou quem eram os samurai que o acompanhavam. O guarda desapareceu no interior do edifício, e logo voltou acompanhado de uma criada. Uma garota jovem, de aparência comum, não mais do que 18 anos.

Ela se curvou quase ao chão, e disse:

– Samurai-sama, me chamo Yue. Sirvo a Senhora Ikeda Uona, que os receberá, venham comigo, por favor.

Os samurai se despediram do servo que os guiara até ali, e adentraram a casa seguindo a criada.

Chegaram até uma sala comum, bem iluminada pela luz do sol que inundava a sala vinda de uma porta larga aberta, que dava visão para um belo jardim de sakuras e um gazebo, com vários arbustos, flores variadas, e uma pequena lagoa rasa.

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Na sombra de uma das árvores repousava um imponente leão, em um sono profundo. O Clã Leão era famoso por criar e adestrar vários felinos de grande porte, especialmente o leão, mas a visão de tal animal, ali, livre, não podia deixar de criar uma certa apreensão.

No interior da sala estavam dois guardas com kimonos marrons com o mon da família Ikeda, portando seus daishos e segurando naginatas. Uma mulher em torno dos cinquenta anos, com os cabelos presos em um coque, já começando a ficar grisalhos, vestindo um kimono também marrom, estava sentada em posição seiza no centro da sala. Os dois samurai caminharam até a mulher, fizeram uma reverência leve, e sentaram-se em frente à ela. Após fazer uma breve mesura em resposta, ela disse:

– É uma honra recebê-los na casa de Ikeda Hosaku, samurai-san.

Shinjo Ogaru respondeu:

– A honra é minha, Ikeda-san.

Hida Yoruichi apenas se curvou levemente em reverência. Antes que pudessem continuar, a conversa foi brevemente interrompida pelo leão, que estava agora adentrando a sala.

– Yuzan, xô! Volte pro jardim! – Ikeda Uona falou para o animal, quebrando a etiqueta. O animal a encarou por um momento, virou a cabeça encarando os dois samurai, e então começou a se virar, lentamente, e caminhou preguiçosamente em direção ao jardim, desaparecendo por trás da parede de madeira.

– Me desculpem. – Ela disse. – Não se assustem. Não terão problemas com Yuzan, apenas se mantenham perto de algum servo da casa. Fui informada que estão aqui para ajudar na investigação sobre o desaparecimento de Utaku Meiko-chan.

Os dois samurai assentiram.

– Utaku-chan desapareceu há seis dias. Logo cedo pela manhã, quando Yue foi aos aposentos de Utaku-chan despertá-la, encontrou o aposento vazio. Yue é a aia de Utaku-chan, e dorme em uma pequena sala ao lado dos aposentos de Utaku-chan. Yue relatou aos magistrados que não viu, ou ouviu nada. Ajudou Utaku-chan a se aprontar para o sono na noite anterior, e foi a última vez que a viu. Tudo foi deixado intocado, como os magistrados recomendaram.

– E sobre Ikeda Hosaku-sama, Ikeda-san? – Indagou Shinjo Ogaru.

– Três dias após o desaparecimento de Utaku-chan, Ikeda-sama disse que havia recebido indícios do que aconteceu com Utaku-chan, e disse que resolveria por conta própria, para restaurar a honra da família e sua. Ele reuniu seus principais guerreiros, e partiu a cavalo. Não disse mais nada.

– Podemos ver os aposentos de Utaku Meiko-san? – perguntou Hida Yoruichi.

– É claro, – respondeu a senhora Ikeda. – Acompanharei vocês.

Acompanhados de Ikeda Uona e Yue, os dois samurai caminharam por um corredor, onde haviam várias portas abertas, que davam visão para o jardim e para o leão, Yuzan. Por fim, chegaram aos aposentos de Utaku Meiko.

Era um quarto clássico com três acessos: a porta principal pela qual entraram, uma porta que dava para o jardim e uma pequena porta para o cômodo de Yue. O mobiliário era simples, como de costume em uma casa tradicional do Clã Leão, mas feito de materiais nobres e preciosos: mogno escuro para os móveis no fundo da sala e piso feito com madeira de cerejeira. Um gabinete ocupava a maior parte da parede direita do quarto com papéis e pincéis, já na parte direita havia um armário grande, e, no centro, uma lareira. Também havia um biombo decorado, que escondia os utensílios de banho da garota.

– Conte-me mais sobre Utaku Meiko-san, Ikeda-san. Algo de estranho que tenha acontecido nos dias que precederam seu desaparecimento… – disse Shinjo Ogaru, ao observar o lugar.

– Utaku-chan era uma garota alegre, muito dedicada. Se destacava em arquearia e cavalaria, como deveria ser. – Ela deu um sorriso cortês, como se tentasse elogiar o Clã de Shinjo Ogaru sem utilizar palavras. – Ela também adorava pintura. Porém, ultimamente, vinha se queixando de pesadelos, cada vez mais assustadores e recorrentes. Por esta razão, trouxemos um shugenja Kitsu para auxiliá-la. Acredito que ele está a caminho, para encontrá-los. Quando Utaku-chan desapareceu, ele pediu a Ikeda Hosaku-sama que recebesse a honra de coordenar os magistrados na investigação.

A mulher caminhou até o gabinete, e apanhou um papel, o estendeu e mostrou aos dois samurai.

– Esta foi a última pintura que Utaku-chan fez. Estava tentando mostrar a Kitsu Moshibaru o que via em seus sonhos.

Shinjo Ogaru e Hida Yoruichi notaram as formas assustadoras que pareciam aranhas. Hida Yoruichi imediatamente lembrou das criaturas das Terras Sombrias, chamadas Kumo, que se alimentavam da alma de suas vítimas antes de assassiná-las. Porém, manteve os pensamentos para si. Falar abertamente das Terras Sombrias era considerado um ato de extrema descortesia, e ele sabia disso.

Os dois samurai começaram a investigar o quarto. Shinjo Ogaru perguntou se algo estava faltando no quarto, e Yue o informou que sim. Junto com Utaku Meiko haviam desaparecido seus óleos aromáticos favoritos, quatro yukatas (peças de roupa), três kimonos, incluindo seu kimono favorito, que havia usado em sua cerimônia de Gempukku, uma bolsa onde ela guardava alguns kokus, dois broches, e um pente de marfim.

Ouviram passos no corredor por onde vieram. Era um samurai de porte físico razoável e com longos cabelos tingidos de vermelho vívido, como era costume de alguns samurai do Leão. Exibia os cabelos soltos, e vestia um kimono marrom, escondido parcialmente por um robe amarelo, com o mon da família Kitsu bordado no ombro esquerdo. Em seu obi, carregava apenas um wakizashi. Era austero e orgulhoso, como a maioria dos Leões, e parecia carregar consigo todo o peso e a história de seus ancestrais. Ele se aproximou do quarto, fez uma reverência, se virou para Ikeda Uona e disse:

– Ikeda-san. – A mulher fez uma mesura leve. Ele então se virou para os dois samurai: – É uma honra conhecê-los. Sou Kitsu Moshibaru.

Os dois samurai se apresentaram. O Leão continuou:

– Fui encarregado em coordenar os magistrados do feudo na investigação. Vossa ajuda é muito bem-vinda. Infelizmente nestes seis dias os magistrados não encontraram nenhum rastro de Utaku Meiko-san. Também não recebemos nenhum pedido de resgate. Tudo nos leva a crer que Utaku-san fugiu, mas as circunstâncias e o motivo de tal atitude são nebulosos.

– E quanto a Ikeda Hosaku-sama? – Indagou Shinjo Ogaru, enquanto Hida Yoruichi caminhava até a porta que dava para o jardim.

– Ikeda-sama não informou nem a mim, nem aos magistrados sobre os indícios que disse ter encontrado, nem para onde iria. O que sei é que se armou com a armadura e armas ancestrais da família Ikeda e partiu com seus guerreiros para o norte. Antes de partir, ordenou que não fosse seguido.

Enquanto Shinjo Ogaru e Kitsu Moshibaru conversavam, Hida Yoruichi havia deixado o quarto. Ao sair em direção ao jardim, deparou-se com o leão Yuzan em seu caminho. O leão o encarava nos olhos, com uma expressão sobrenatural. O Caranguejo ficou imóvel como a montanha, encarando o leão de volta, sem demonstrar medo. Então, o extraordinário aconteceu – o animal abriu a enorme boca e falou com uma voz mística:

– Não se assuste, descendente de Hida. Não sou Yuzan. Sou apenas um espírito da terra possuindo esse corpo com a permissão do animal. Sou um kami que protege essa família há muito tempo, e mesmo assim os shugenja que aqui estiveram pela criança não me ouviram como deveriam, se perdem em suspeitas tolas… A resposta é única e o caminho é aquele que você vêm seguindo, apesar de haver muito mais por trás de uma cortina enevoada, que eu não posso enxergar além.

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Então a expressão sobrenatural desapareceu, e seus olhos voltaram a ser apenas os de um animal. Para Hida Yoruichi, as coisas estavam ainda mais confusas… mas, novamente, preferiu se calar. Já tinha que lidar com o preconceito costumeiro dos outros Clãs em relação ao seu Clã, “Caranguejo estúpido”.

No quarto, Shinjo Ogaru havia sido informado por Kitsu Moshibaru e Ikeda Uona que Ikeda Hosaku vinha considerando pretendentes para Utaku Meiko. Investigando o armário, Shinjo Ogaru encontrou uma caixa pequena que continha várias cartas da garota.

Ele começou a folheá-las, e Kitsu Moshibaru tentou o interromper, dizendo que os magistrados já haviam procurado ali.

Mas Shinjo Ogaru não se conteve, e continuou investigando as cartas ao notar olhares nervosos entre Kitsu Moshibaru e a criada, Yue.

– Utaku-san falava de seus pretendentes? Algum em especial? – Shinjo Ogaru perguntou a Yue. A aia ficou ainda mais nervosa. Shinjo Ogaru notou que várias cartas eram de Kitsu Moshibaru.

– S-n… não. – disse Yue, nervosamente. Shinjo Ogaru notou a tensão, e, para não ser desonroso, fez um aceno cortês com a cabeça para Kitsu Moshibaru, indicando o jardim, e começou a caminhar devagar naquela direção, mantendo a etiqueta. Kitsu Moshibaru o seguiu. A sós, Shinjo Ogaru mostrou uma das cartas a Kitsu Moshibaru.

Kitsu Moshibaru reconheceu a carta. Ele sabia seu conteúdo. Ele e Utaku Meiko vinham trocando cartas há algum tempo, com o intuito de ajudar a garota com os pesadelos. Mas naquela carta, havia demonstrado um nível de afeição impróprio, elogiando a beleza de Utaku Meiko, e como ficara bonita no kimono púrpura e branco que vestiu em sua cerimônia de Gempukku.

Aquilo desconcertou Kitsu Moshibaru.

– Utaku Meiko-san e eu trocamos cartas desde que cheguei. Seu treinamento e a aproximação do Gempukku a ocupam muito, não podemos conversar tanto quanto gostaria para ajudá-la, então as cartas são um grande auxílio. – Falou, tentando manter a compostura.

– Notei que ela recebia cartas de outros pretendentes. – Disse Shinjo Ogaru com cuidado. – Ela poderia ter fugido com algum deles?

– Não! – respondeu Kitsu Moshibaru em um momento de descuido, deixando suas emoções aflorarem, mesmo que superficialmente, algo imperdoável para um samurai com tamanha honra quanto a sua. – Meiko-hime não faria isso. – O Leão logo percebeu seu descuido, e tratou de se recompor, voltando a exibir uma expressão austera. – Utaku Meiko-SAN, – o shugenja do Leão enfatizou, – é honrada, não desonraria seu daimyo dessa forma.

Shinjo Ogaru percebeu que estava navegando em águas tempestuosas.

– Sabe se Ikeda Hosaku-sama escolheu um pretendente para desposá-la? – perguntou Shinjo Ogaru, num tom cortês, mantendo a etiqueta e tentando evitar inflamar mais emoções no Leão.

– Não. Mas Ikeda-sama favorecia um de seus melhores guerreiros, Akodo Soetsu.

– Curioso. – Shinjo Ogaru disse, após vasculhar as cartas procurando por uma carta de tal Akodo Soetsu, e não encontrar nenhuma, embora aquilo não fosse incomum. Em Rokugan, raramente um casamento era determinado por amor, era, quase sempre e inevitavelmente, uma ferramenta política. Ainda assim, fazia parte da etiqueta que pretendentes trocassem cartas.

Shinjo Ogaru fez um gesto para que Yue se aproximasse, e a criada prontamente obedeceu.

– Yue, conhece Akodo Soetsu? – Perguntou o samurai Unicórnio.

– Sim. – Respondeu a serva, ainda um pouco tensa. – Akodo-sama e Utaku Meiko-sama se coonhecem desde que ela chegou em Kenson Gakka, ainda criança. Sempre foram amigos próximos.

– Sabe se os dois trocavam afetos? – Shinjo Ogaru percebeu que a tensão da serva se intensificou novamente. – Responda a verdade. Nada do que eu ouvir aqui será repetido por mim. Como um samurai, não me sinto confortável em investigar a vida privada de uma samurai-ko, muito menos iria expor detalhes da vida de camaradas samurai. Entretanto, considero isso importante para elucidar o desaparecimento de Utaku Meiko-san.

Aquelas palavras surpreenderam Kitsu Moshibaru. O conceito que os demais Grandes Clãs tinham do Unicórnio, era o de gaijins desonrados que não respeitavam as tradições e costumes de Rokugan. Mas até aquele momento, Shinjo Ogaru havia se comportado de maneira exatamente oposta àquilo, e se mostrava um samurai muito honrado.

– O afeto entre Utaku-sama e Akodo-sama não passava de uma amizade próxima. – Respondeu Yue, um pouco aliviada.

– Os dois trocavam cartas? – perguntou Ogaru.

– Não que eu saiba… digo, no dia antes do desaparecimento, Utaku-sama recebeu uma carta de Akodo-sama. Não sei de mais nada.

Shinjo Ogaru se certificou mais uma vez de que não havia nenhuma carta de Akodo Soetsu. Os três caminharam até o interior do quarto mais uma vez.

Hida Yoruichi conversava com Ikeda Uona sobre Ikeda Hosaku. Os dois estavam prestes a ir até os aposentos do senhor Ikeda. Kitsu Moshibaru se ofereceu para acompanhá-los, enquanto Shinjo Ogaru decidiu permanecer no quarto de Utaku Meiko com Yue, para procurar mais algum detalhe que eles ou os magistrados pudessem ter deixado passar.

Hida Yoruichi, Kitsu Moshibaru e Ikeda Uona seguiram pela casa, e passaram por uma sala que deveria conter a armadura e armas ancestrais dos Ikeda, mas estava vazia. Adentraram os aposentos de Ikeda Hosaku, um quarto ainda mais simples que o de Utaku Meiko, mas não encontraram nada relevante que pudesse dar alguma pista. Por fim, chegaram até um outro aposento, uma espécie de escritório, com uma mesa, e várias prateleiras que continham pergaminhos e documentos. Sobre a mesa havia vários pergaminhos abertos.

Os dois samurai começaram a investigar a sala, sob o olhar pesaroso de Ikeda Uona. A princípio, não encontraram nada interessante. No mapa das terras do Leão, sobre a mesa, havia uma marcação em Shiro Matsu, mas aquilo aparentava não significar nada.

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Com uma inspeção mais cuidadosa, Hida Yoruichi notou que muitos dos pergaminhos haviam sido retirados das prateleiras de qualquer maneira, algo muito incomum, pois era costume Rokugani zelar muito bem por documentos e fontes históricas escritas. Observando os pergaminhos sobre a mesa, notou que muitos deles diziam respeito à linhagem Ikeda, que terminava nos dois filhos de Ikeda Hosaku (o mais velho servia em Shiro Matsu, a principal fortaleza da família Matsu, e o mais novo era um magistrado esmeralda, que morava em Toshi Ranbo, a capital do Império). Alguns pergaminhos, entretanto, tratavam de forma superficial da linhagem do Unicórnio, especialmente da família Utaku.

Kitsu Moshibaru, entretando, encontrou uma carta incompleta. Estava escrita usando cifra, como era costume, mas o shugenja Leão não teve dificuldade em decifrá-la. Tratava de uma mensagem de Ikeda Hosaku para Matsu Atsumori, um servo e conselheiro de Matsu Chizuki, daimyo da Família Matsu. Na mensagem, Ikeda Hosaku anunciava sua intenção de visitar Shiro Matsu em breve, para resolver “este assunto de tal urgência”.

Isso tinha alguma ligação com a marcação em Shiro Matsu, no mapa? O daimyo Matsu Domogu estava em Shiro Matsu, seria coincidência? O que Ikeda Hosaku descobrira sobre o desaparecimento de Utaku Meiko, que o faria partir daquela forma para “restaurar a honra da família Ikeda”?

E Hida Yoruichi, que estava ali cumprindo seu dever com seu Clã e Imperador, caçando uma criatura de Jigoku, agora estava se vendo imerso em uma questão que parecia cada vez mais política, e cada vez menos relacionada com o Yokai, como esperava – e como o kami havia dito a ele. Mas talvez tivesse interpretado errado as palavras do espírito, afinal, não entendia nada sobre os kami e seus enigmas. Seria sensato contar aquilo para o shugenja Kitsu? As coisas eram tão mais simples e fáceis de resolver quando estava em Kaiu Kabe massacrando os servos de Fu Leng… o Caranguejo não tinha gosto – muto menos paciência – para todos aqueles jogos de palavras e etiqueta.

Enquanto isso, Shinjo Ogaru não encontrou pista alguma, e estava cada vez mais convencido que Utaku Meiko havia fugido por conta própria. Entretanto, conversando com os guardas, não encontrou uma maneira pela qual a garota pudesse ter fugido sem que os guardas a tivessem visto. Talvez uma conversa com Akodo Soetsu no dia seguinte elucidasse algumas coisas, mas estava cético quanto a isso.

O sol já começava a se pôr em Kenson Gakka, banhando a casa dos Ikeda com uma cor alaranjada, e o fim daquele dia trazia mais perguntas que respostas.

Ikeda Uona ofereceu aos três samurai que descansassem, e usufruíssem da hospitalidade da casa de Ikeda, com todo o conforto merecido por samurai de tal posição e honra.

E, por hora, eles encerraram as investigações, se recolheram para seus aposentos individuais oferecidos pela casa de Ikeda, e foram se preparar para um chá e desjejum junto à sua anfitriã, como mandava o costume.

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Escamas da Guerra: Resgate em Rivenroar parte 1

abril 8, 2010 10 comentários

Essa sessão inaugurou a campanha Escamas da Guerra, e marcou o nascimento dos Espíritos Selvagens, nome que o bardo Pirling deu ao grupo logo após os primeiros combates, ainda em Brindol.

O Reporte de Sessão é um tipo de postagem onde descrevo resumidamente os acontecimentos da última sessão de jogo, narrando o ocorrido com o grupo da nossa campanha, ambientada em um mundo próprio, seguindo o conjunto de aventuras Escamas da Guerra, publicado ao longo das edições da revista Dungeon. Nosso grupo iniciou esta campanha no nível 1, com a aventura Resgate em Rivenroar.

Missão

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A Mão Vermelha da Perdição retornou e está atacando Brindol! Os personagens se vêem no centro deste ataque, e não têm escolha a não ser defender a cidade. A Mão Vermelha roubou os troféus do Salão da Grande Honra que Brindol guardava da última guerra contra a Mão. O povo da cidade está desesperado e humilhado, e deseja seus troféus de volta. Além disso, algumas pessoas foram raptadas, e o chefe do Conselho de Brindol, Eoffram Troyas, contacta os PJs e os contrata para uma missão: encontrar o paradeiro dos tesouros e das pessoas desaparecidas.


O Grupo

Nessa sessão tivemos o grupo completo.

História

Por um acaso do destino, todos os personagens se encontravam na taverna do Cardo e Galhada, em Brindol. O ambiente era aconchegante e animado, apesar da sombra de preocupação que pairava sobre a cidade diante dos rumores do surgimento de um novo mal no Vale Elsir. A diversão e a calma foi quebrada quando um grupo de goblinóides invadiu a taverna, com uma mão vermelha pintada sobre o peito, e gritando "Pela Mão, por Sinruth!". Os goblinóides arremessaram tochas de betume na prateleira onde ficavam as bebidas, e foram logo matando a sangue frio quem viam pela frente, inclusive os simpáticos donos da taverna: Andrew e Margareth. Isso atiçou o senso heróico dos PJs, que logo ofereceram resistência aos invasores. Com os goblinóides derrotados, os PJs se ocuparam de retirar os sobreviventes da taverna, que agora queimava quase por completo. Ao saírem, descobriram que toda Brindol estava sob ataque. Sem dar tempo para os personagens pensarem no que fazer, um ogro irrompeu da esquina ao norte, arrastando uma carroça. Em cima da carroça se encontravam dois hobgoblins, atirando flechas na população e nos guardas conforme passavam, e esporadicamente entregando barris cheios de pixe para telhado para o ogro, aos quais eles ateavam fogo e, quando arremessados pelo ogro, explodiam causando graves danos. Com a ajuda dos guardas, e após muita destruição causada pelos barris arremessados pelo ogro, finalmente os PJs estavam com caminho livre para defender a cidade. Os guardas pediram reforços na ponte sobre o Rio Elsir, mas quando chegaram, perceberam que o ataque havia terminado. Uma chuva forte caiu sobre o Vale, como um presságio de que dias tempestuosos estavam por vir.

A cidade estava sob o caos. Várias construções pegavam fogo, e muitas pessoas estavam feridas precisando de socorro. Enquanto Pirling, o bardo, corria em direção da loja de poções de seu pai para se certificar de que tudo estava bem, o resto do grupo se ocupou de procurar Eoffram Troyas. O conselheiro conversou com o grupo, e disse que tinha algo em mente para eles, mas que conversariam logo pela manhã.

Pirling encontrou seu pai, que estava bem, mas a loja de poções estava sob chamas.

O grupo passou a noite ajudando os guardas da cidade a socorrer os feridos, manter vigilância sob as muralhas, e apagar os incêndios causados pelos goblinóides.

Na manhã seguinte, o grupo, exausto, foi se encontrar com Eoffram Troyas. Após uma conversa tensa e pouco amistosa (o conselho da cidade desaprova a atitude de Eofrram Troyas, de contratar aventureiros para resolver os problemas da cidade), o grupo recebeu a missão de encontrar o paradeiro dos troféus da cidade e das pessoas desaparecidas. Troyas disse ao grupo que um hobgoblin havia sido capturado na noite anterior, e que ele estava disponível à eles para interrogatório.

Assim, o grupo seguiu para os calabouços de Brindol, para interrogar o hobgoblin Morrik.
Através de blefes e oferecendo liberdade a Morrik, o grupo tentou convecê-lo a dizer para onde havia sido levado o tesouro e as pessoas desaparecidas. Morrik mencionou que um outro hobgoblin, chamado Sinruth, estava tentando reeguer a Mão Vermelha da Perdição, e para isso estava agrupando um exército nas catacumbas das ruínas do Castelo Rivenroar. Ele também disse que havia ouvido Sinruth mencionar algo a respeito de "dar de comer para os horrores mortos-vivos", e acreditava que as pessoas raptadas serviriam para esse fim. Morrik então esboçou o desenho de um mapa indicando a localização do Castelo, que ficava sobre a Montanha do Cume dos Ventos, a nordeste de Brindol.

De posse dessas informações, o grupo partiu em direção às ruínas do Castelo Rivenroar.

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Uma viagem que era para ser aparentemente fácil e durar cerca de 8 horas, se apresentou muito complicada e demorada. Em função das encostas perigosas e do mau tempo da montanha, além do fato do mapa ser impreciso e do grupo não conhecer o lugar, a viagem demorou quase três dias, sendo que na primeira noite, sem querer o grupo acabou acampando na área de caça de um urso das cavernas, que os atacou, mas foi derrotado sem muito esforço.

Na tarde do terceiro dia de viagem, o grupo parecia finalmente chegar às ruínas. Porém, antes mais um desafio se apresentou ao grupo: a trilha passava direto pelo ninho de kruthiks, que não exitaram e atacaram os personagens. Com muito esforço, e após Beren e Reivax quase morrerem, o grupo conseguiu matar as criaturas selvagens, finalmente alcançando o Castelo.

Em função dos graves ferimentos, do cansaço, e da noite que se aproximava, o grupo resolveu acampar a algumas centenas de metros do castelo, para recuperar suas forças antes de atacar Sinruth e seus lacaios.

Encontros

Os encontros da sessão foram bastante equilibrados, sendo que o combate contra os Kruthiks se mostrou um pouco mais desafiador. A dificuldade do grupo ficou mesmo por conta dos Desafios de Perícias, detalhados mais a frente.

1. Briga de Bar!

Goblins...

Este encontro serviu para os jogadores testarem as habilidades dos seus personagens, e também para se familiarizarem com os personagens uns dos outros. O combate foi vencido sem problemas pelo grupo. Os inimigos eram compostos de:


  • 10 recrutas hobgoblins (lacaio de nível 3)
  • 2 goblins lâminas negras (espreitador de nível 1)

O combate começou com quadtro recrutas hobgoblins entrando pela porta, colocando fogo na taverna e matando os frenquentadores que viam pela frente. Na 2ª rodada de combate, mais três hobgoblins entraram na taverna, acompanhados de um goblin lâmina negra; na 3ª rodada, mais dois hobgoblins entraram; e, por fim, na 4ª rodada outro hobgoblin e um goblin lâmina negra entraram na taverna.

O XP total do encontro foi de 580, já que os goblinóides não estavam inicialmente somente focados nos PJs.

...e Hobgoblins


2. O Ogro Bombardeiro

Para mim (o DM), este foi, de longe, o encontro mais legal da sessão (o DM também tem que se divertir! :P). Combate divertido, e uma cena um tanto incomum: um ogro puxando uma carroça, arremessando barris de pixe em chamas, e dois hobgoblins montados na carroça, atirando flechas na população nos habitantes da cidade, e alguns turnos depois, atacando os PJs enquanto entregavam barris nas mãos do ogro. Os inimigos:

  • 2 arqueiros hobgoblins (artilheiros de nível 3)
  • 1 ogro selvagem (bruto de nível 8 )

Ogro

Esta luta deu um pouco mais de trabalho para o grupo, sobretudo para o Bardo Pirling, que teve que usar mais seus poderes de cura e pontos de vida temporários. Aqui ocorreu talvez um erro de estratégia do grupo: eles se focaram no ogro e deixaram os hobgoblins, mais fracos, livres de qualquer ameaça, atirando flechas nos personagens e entregando "munição" para o ogro até a ante-penúltima rodada de combate. Isso custou um pouco caro ao grupo, e tornou o combate um pouco mais difícil do que realmente era.


Em condições normais um grupo de personagens de 1º nível não deve ser capaz de derrotar um bruto de nível 8, mas a carroça presa ao ogro o impedia de se deslocar normalmente (metade do deslocamento), o que concedia vantagem ao grupo. Eu estava um pouco preocupado a respeito desse combate no início, mas logo percebi que tudo estava indo bem, e nenhum problema por desequilíbrio aconteceu.

O XP total do encontro foi de 650.

3. A Convocação

Bom, este encontro foi um Desafio de Perícias, que servia para o grupo convencer o conselheiro Eoffram Troyas de que eram bons o suficiente para completar a missão, e de que contratá-los era uma boa idéia. O grupo falhou no desafio, mas o problema foi unicamente azar nos dados!

  • Nível: 1, XP: 200, Complexidade: 2 (requer 6 sucessos antes de 3 falhas), Perícias Primárias: Diplomacia (ND 15), Intuição (ND 15), História (ND 13).

O primeiro sucesso em Diplomacia permitia o uso da perícia História. O primeiro sucesso em Intuição revelava ao jogador que qualquer uso da perícia Intimidação gerava uma falha. O primeiro a rolar os dados foi o bardo Pirling, testando Diplomacia, bem sucedido. Em seguida, o warden Reivax testou Intuição, uma falha. Então o bárbaro Khrull testou Intimidação, uma falha automática. Eram duas falhas. O desafio seguiu por mais uma rodada, e sem sucesso em Intuição (e Intimidação), o grupo havia falhado no desafio. Isso fez com que Eoffram Troyas contratasse os PJs contrariado, e deixando bem claro que a falta de qualquer notícia relatando algum tipo de avanço na busca pelos troféus e prisioneiros, iria acarretar na contratação de outros aventureiros no lugar deles.

4. Interrogando Morrik

Novamente, um Desafio de Perícias. Aqui, outra falha, mas por discrepâncias dentro do grupo. Enquanto Pirling tentava ser diplomático e usar seu Blefe para convecer o hobgoblin a contar o paradeiro dos troféus e das pessoas raptadas em troca de liberdade, Khrull, com toda sua tempestuosidade, foi logo o intimidando, ameaçando sua vida. Bom, a Intimidação de Khrull gerou dificuldades para os testes de Blefar e Diplomacia de Pirling, e novamente o grupo fracassou. Apesar de dar as informações sobre Sinruth, e sobre o Castelo Rivenroar, Morrik desenhou um mapa falso, que levava o grupo diretamente para um ninho de kruthiks. E por muito pouco o plano do hobgoblin não deu certo…

  • Nível: 1, Complexidade: 2 (requer 6 sucessos antes de 3 falhas), Perícias Primárias: Blefe (ND 20), Diplomacia (ND 15), História (ND 13), Intimidação (ND 15).

5. Rastreando os Goblinóides

Montanha do Cume do Vento

Este foi o encontro mais difícil de toda a sessão. Aqui os jogadores se depararam com a falta de versatilidade do grupo no que diz respeito às perícias. Novamente uma falha.


  • Nível: 1, XP: 300, Complexidade: 3 (requer 8 sucessos antes de 3 falhas), Perícias Primárias: Percepção (ND 18), Natureza (ND 15), Tolerância (coletivo) (ND 10).

Como o grupo tinha consigo o mapa desenhado por Morrik (mesmo sendo o falso), os testes de Percepção eram feitos com +5 de bônus, mas mesmo assim Khrull (que tinha ficado resposável em fazer os testes dessa perícia) obtinha falha atrás de falha. Os testes de Natureza eram feitos com sucesso por Beren, mas ainda obteve uma falha. Os testes de Tolerância eram feitos de forma coletiva: se pelo menos dois personagens obtivessem um sucesso, o teste era considerado um sucesso. Caso contrário, era considerado uma falha, e todos tinham que gastar um pulso de cura para representar à exposição ao mau tempo da montanha. O fracasso em testes de Natureza também exigiam o gasto de um pulso de cura, mas antes o personagem tinha o direito de realizar um teste de Atletismo (ND 10) para tentar evitar o gasto.

A falha neste desafio fez o grupo se meter na área de caça de um urso das cavernas…

6. Os Caçadores se tornam as Presas

Quando o grupo montava acampamento na encosta da montanha, um Urso das Cavernas furioso atacou o grupo.

  • 1 urso das cavernas (bruto de elite nível 6)

Este combate, assim como o do ogro, me preocupava pelo nível do mostro. Mas o grupo soube fazer uma estratégia perfeita, e o combate foi vencido sem nenhum grande problema (devo mencionar que fui extremamente azarado nos dados, e não consegui recarregar a Fúria do Urso da Caverna nenhuma vez durante o encontro, o que, para a sorte dos personagens, tornou o combate mais fácil).

XP total do encontro: 500

7. Emboscada Kruthik

O mapa falso de Morrik levou o grupo direto para um ninho de kruthiks. O hobgoblin pretendia acabar com os personagens, mas seu plano foi por água abaixo…

  • 2 kruthik adultos (bruto de nível 4)
  • 2 kruthik jovens (bruto de nível 2)
  • 4 kruthik infantes (lacaios de nível 2)

O grupo foi surpreendido pelos kruthik adultos e jovens saindo do ninho e atacando os personagens. Os kruthik infantes saíram do ninho e entraram no combate somente a partir da 3ª rodada de combate, quando os PJs se aproximaram do ninho.

Kruthiks

O combate foi difícil. Os kruthik adultos deram muito trabalho com seus Espinhos Tóxicos (2 alvos diferentes, 1d8+4 dano, 5 de dano contínuo por veneno e o alvo fica lento). Sem sombra de dúvidas foi esse o fator que tornou o combate difícil. Também houveram alguns erros de posicionamento por parte do grupo, mas nada muito grave, até porque estão todos aprendendo a usar seus personagens.

Na penúltima rodada de combate, Reivax e Beren estavam inconscientes, já com duas falhas nos testes de resistência contra morte, a apenas uma falha de morrerem. Foi neste turno que Khrull e Pirling viraram a maré, e conseguiram, neste turno e no início do último turno, derrotar as criaturas e então socorrer seus companheiros. Pela regra, Reivax e Beren deveria rolar mais um teste de resistência, mas eu preferi não correr o risco e deixá-los serem socorridos por seus amigos (afinal, a campanha acabou de começar, todos os jogadores estão empolgados com seus personagens e morte de personagens jogadores não é algo legal para um início de campanha).

XP total do encontro: 600

Logo após este combate, a sessão terminou, com o grupo acampado perto das ruínas do Castelo, esperando anoitecer, descansando ao lado da fogueira para recuperar suas forças e aguardando a próxima manhã, para então invadir as catacumbas do Castelo Rivenroar e tentar atingir seu objetivo: recuperar os troféus da cidade e resgatar os prisioneiros.




Fotos da Sessão

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Até,
Eduardo Casati
Admin da Toca do Dragão



Escamas da Guerra: Os Espíritos Selvagens

abril 5, 2010 3 comentários

BEREN KELL’ADRINN
Elfo Druida (Primal Predator)
Por Pablo.

O mundo nunca foi um lugar seguro. Esse ensinamento, Beren sentiu na pele.

Estava às vésperas de atingir sua maturidade perante sua tribo quando a Mão Vermelha da Perdição caiu sobre o Vale Elsir.

Sua vila ficava nos arredores da cidade de Brindol; a menos de um dia de viagem da ajuda, mas não perto o suficiente.

A dizimação foi total. A aldeia não existe mais. Aqueles que sobreviveram se espalharam aos quatro ventos. Beren, deixado sem pai ou mãe, foi resgatado, por um idoso druida, das mãos da morte, no meio da floresta.

Sem ter para onde ir ou o que fazer, em estado de choque, foi assistido pelo ancião, que o criou e terminou sua educação: o ensinou sobre os Espíritos e como conversar com eles, como ouvi-los; o ensinou que não estava sozinho, mas uno com toda a natureza; o ensinou em especial sobre o funcionamento do mundo, sobre a teia vital que une cada ser vivo e sobre os perigos da vida em morte.

Não muitos anos depois, o velho morreu. Mas Beren já não era uma criança. Enterrou seu corpo e orou aos Espíritos pela purificação da alma de seu mentor, para que, desta forma, fosse possível seu retorno ao Fluxo Primordial, permanecendo no infindável ciclo da vida.

Beren viveu sozinho nos arredores de Brindol, sobrevivendo da natureza, em paz, até um fatídico evento. Há poucos dias, os Espíritos o avisaram, em sonho, sobre uma ameaça vindoura. No sonho, uma mão vermelha avançava sobre o Vale, deixando em chamas as florestas em seu caminho, em direção à Brindol.

Assim que a manhã cinzenta daquela noite levantou as cortinas da penumbra, Beren recolheu suas parcas posses e rumou para a cidade, onde espera ser de alguma valia contra o inimigo do Vale Elsir.




KHRULL MACHADO-DE-KORD
Meio-orc Bárbaro (Rageblood Vigor)
Por Charton.

No início de sua infância (se é que pode ser chamada assim) Khrull foi “seqüestrado” pelo seu pai Trughar Força-de-muitos, para aprender como ser um guerreiro orc e ajudar na pirataria.

Mas Khrull tinha também um lado humano florescendo dentro dele, e muitas vezes ele se perguntava o porque de tanta atrocidade, e se era realmente necessário tudo aquilo. Esse sentimento duvidoso, levou-o a exitar algumas vezes, para insatisfação de seu pai.

Humilhado por todos os Orcs que convivera por algum tempo, e inclusive por seu pai, Khrull foi deixado em terra, onde teve um árduo caminho de volta para casa.

Lá chegando, reencontrou sua mãe, que por motivos óbvios não o recebeu muito bem. Ele passou a ajuda-la na tenda de verduras na feira do vilarejo, mas sua presença intimidava naturalmente as pessoas e os negócios em conseqüência disso iam mal.

De primeiros olhares reprovativos, em seguida comentários inoportunos sobre seu lado Orc, a gota d’água veio quando sua mãe, incentivada pelo resto do vilarejo, colocou-o para fora de casa.

Nesse momento ele entendeu que não pertencia a nenhuma das raças, era Humano de mais pra ser um Orc, e Orc demais para ser um Humano.

Ele passou a viver sozinho na mata, tentando entender a inflexibilidade dos Orcs que por conseqüência disso agiam estupidamente, e a super-flexibilidade dos Humanos que por conta disso são vistos como frágeis e são desrespeitados.

O tempo passou, e o que parecia ser apenas mais um dia comum começou intrigantemente fora de rumo.

Um grito de socorro vindo em meio a mata da Floresta das Bruxas, Khrull foi averiguar do que se tratava pois estava ali por perto. Chegando próximo, deparou-se com uma carruagem atolada em um lamaçal. Ela estava emboscada por Goblinóides, que já haviam matado dois dos guardas. O último que sobrara estava ferido, mais mesmo assim tentava proteger uma mulher que estava na carruagem. Vendo aquela cena, Khrull investiu em direção ao grupo de Goblinóides, e com apenas um golpe, acompanhado de um urro, matou 3 dos Goblinóides e derrubou ferindo gravemente outros 2 deles. Embasbacados com a cena, os outros Globinóides fugiram em direção a mata. Khrull, visto que já havia ajudado, tomou-se a caminhar em direção a mata também, até ser interrompido pela mulher com um pedido de ajuda. Ela apresentou-se como Alyss e disse ser “algum tipo de mensageira”. Falou ter cortado caminho pela estrada abandonada da floresta, pois devia seguir viagem até a cidade de Brindol o mais rápido possível (coisa que pela estrada principal levaria dois dias a mais), onde levaria uma mensagem urgente de Vrath Keep, ao Conselheiro de Brindol. Compadecido com a situação da mulher, Khrull ofereceu-se para escolta-los até Brindol.

Lá chegando, Alyss foi a audiência com a tal autoridade, enquanto Khrull sabia um pouco mais a respeito da situação com Gorlan, o escudeiro sobrevivente da emboscada. Por ele Khrull ficou sabendo superficialmente de alguns problemas que estão ocorrendo nas redondezas.

Após a audiência, Alyss se dirige Khrull agradecendo por sua compaixão e diz já ter uma escolta reforçada para ir ao próximo destino, e que sua hospedagem na taverna da cidade pelo tempo que precisar, já foi garantida. Com um gesto visivelmente de coração, Alyss toma a mão de Khrull e a beija em um ar de gratidão. Então ela se vira e sai com sua guarda rumo aos portões da cidade.

Com o acontecido, Khrull começa a se questionar a possibilidade de ser diferente, e conseguir respeito por feitos como os da Floresta da Bruxas. E motivado por esse pensamento, está em busca de oportunidades. E o Reino de Brindol parece não deixar a desejar.




PIRLING VOZ-DE-AVANDRA
Meio-elfo Bardo (Virtue of Valor)
Por Dionatas Andreghetto.

Pirling nasceu em Brindol, e foi criado como uma criança humana comum pelo seu pai, um comerciante de poções chamado Fearil.

Quando não estava ajudando seu pai na loja, Pirling gastava seu tempo perambulando pela cidade, ouvindo histórias e aprendendo tudo o que podia com os menestréis que encontrava.

Sua mãe sempre foi um mistério para ele, e sempre que perguntava para seu pai, ouvia uma conversa fiada qualquer como resposta, e logo seu pai desconversava, mudando o assunto da conversa.

Pirling sempre teve um fascínio por viagens, e desde muito pequeno sonhava com uma vida repleta de ação e aventuras. Sentia como se sua casa não fosse de fato seu lar, e tinha um ímpeto aventureiro que nem mesmo ele entendia.

Quando mais jovem, para saciar esse desejo por viagens e aventuras, Pirling costumava perambular pelas fazendas nos arredores de Brindol. Certa vez, em uma dessas caminhadas, Pirling encontrou uma mochila velha e vazia abandonada na estrada. Qualquer pessoa comum não daria a menor atenção ao objeto, mas Pirling sentiu que aquilo era algo especial. Ele acreditava que aquilo era algum tipo de sinal ou mensagem, e que precisava descobrir o que era.

Partiu de volta para Brindol, e, após uma breve pesquisa na humilde biblioteca da cidade, descobriu algo intrigante: que Avandra, a deusa das viagens e aventuras, tem como símbolo uma mochila.

Isso acendeu em Pirling um senso de propósito, e ele percebeu que seu ímpeto aventureiro e sede por viagens não era uma mera vontade: era uma necessidade de sua alma, um impulso de Avandra que tentava guiá-lo para seu destino.

Porém, Pirling era jovem demais para deixar sua casa, e durante anos passou a ficar cada vez mais tempo nas ruas e tavernas, ouvindo contos e sagas contados pelos vários menestréis, sempre de passagem pela região. Aquilo fascinava Pirling, e toda noite ele ia dormir se imaginando no lugar dos grandes heróis das histórias que ouvia.

Durante essa época Pirling aprendeu a arte da trova, e também como tocar gaita de fole e alaúde (instrumentos que ele ainda está aprimorando sua técnica). Nesse período ele conheceu um gnomo chamado Gnobar, mestre das artes arcanas. Pirling ansiava por conhecimento, e as habilidades do gnomo o impressionavam. Ele pedia insistentemente ao gnomo que o ensinasse a fazer aqueles truques, mas o gnomo dizia que para fazer aquilo era necessário um dom natural, e não aprendizado. Mas Pirling não é do tipo de pessoa que aceita um “não” como resposta. Daquele dia em diante, e por todo o tempo que o gnomo ficou em Brindol, Pirling o examinava meticulosamente, tentando captar cada gesto do gnomo.

Foi assim que, durante uma bebedeira na taverna com seu amigo Gnobar, Pirling, ao se meter em uma confusão com um meio-orc irritado, desapareceu da vista de todos. E para a surpresa de Gnobar, Pirling provara que nada era impossível diante de sua engenhosidade. Mais uma vez, ele agradeceu a Avandra por aquele presente.

Agora, poucas semanas após atingir sua maioridade, Pirling está entediado, pronto para se meter em qualquer enrrascada que o leve a algum tipo de aventura.




REIVAX
Humano Warden (Earthstrength)
Por Daniel Coutinho.

Reivax (Xavier) foi um garoto comum de uma família de comerciantes. Era conhecido por seus familiares como um garoto bom e com afinidade pela natureza e animais, porém sua infância foi destruída pelos primeiros ataques da Mão Vermelha da Perdição.

Tornou-se órfão e vagou pelas ruínas das cidades derrotadas sobrevivendo e caminhando sem rumo. Sem perceber foi cada vez mais se afastando da civilização e indo mais e mais para dentro de áreas primitivas, até por fim se tornar um proscrito, um sobrevivente.

No começo de sua juventude ele era uma figura assustadora, às vezes confundido com algum selvagem por algumas caravanas que cruzava. Criou afinidade nessas terras intocadas pelo homem e, com o tempo, uma criatura que se auto-intitulava Espírito da Montanha tornou-se seu confidente e compartilhou com ele os segredos dos elementais. Agora ele era o protetor dessas terras e seu passado parecia um sonho ruim esquecido.

Mas com rumores do retorno da Mão Vermelha da Perdição, seu pesadelo voltou para assombrá-lo, mas ele já não é um garoto indefeso. É um Guardião, e, aqueles que uma vez já destruíram e corromperam, agora devem ser punidos com a fúria da terra.




Até,
Eduardo Casati
Admin da Toca do Dragão

Escamas da Guerra: Prelúdio

abril 5, 2010 1 comentário

O mundo nunca foi um lugar seguro. Baluartes de civilização tornam habitável um mundo sombrio e ameaçador – “ilhas” de ordem e razão existem em uma terra assolada por cultos sombrios, monstros vis, criaturas provenientes dos recônditos mais sombrios de nossa imaginação e de lugares ainda piores. Como se não bastassem os perigos do dia-a-dia, alguma coisa começou a agitar-se nas proximidades do civilizado Vale Elsir. Outrora o local do ataque de um exército conhecido por Mão Vermelha da Perdição, o Vale experimentou vários anos de paz desde que um grupo de bravos aventureiros atacou violentamente a Mão que se aproximava e os rechaçou de volta à escuridão.

Mas a paz no Vale Elsir – e especialmente na cidade de Brindol, coração do conflito com a Mão Vermelha – foi quebrada. A tênue sombra de preocupação, que assombrou os habitantes do Vale ao longo dos últimos anos, concretizou-se na forma de um ataque à cidade. Agora, Brindol encontra-se novamente na necessidade de bravos heróis dispostos a ajudar seus cidadãos.

Bom, esta é uma campanha de D&D 4ª Edição que foi lançada ao longo das edições da revista Dungeon (publicada pela Wizards of the Coast), que está sendo mestrada por mim e jogada por Daniel Coutinho, Pablo, Dionatas Andreghetto e Charton. Começamos a campanha dia 02/abril/2010, e a partir da próxima sessão, contaremos também com a presença do Bruno Cardi.

Nossa intenção é jogar toda a campanha, que se inicia no nível 1 e se estende até o nível 30. Veremos se iremos conseguir…

Até,
Eduardo Casati
Admin da

Planilhas para D&D em Português!

Essa planilha foi originalmente publicada em inglês, pela Licença Creative Commons, e o Cobbi, do blog d3system, traduziu ela e liberou pra galera baixar.

Então segue abaixo o link para download dessa ficha que, diga-se de passagem, ficou magnífica.

Download da Planilha

PS.: Essa planilha não tem uma página para rituais, mas em breve postarei uma só com este fim.